Ilustración del arresto de Juana de Arco

O julgamento público de Joana d'Arc em Rouen

A 21 de fevereiro de 1431, teve início em Rouen o julgamento público de Joana d'Arc, um dos julgamentos mais documentados da Idade Média.

Acusada de heresia por um tribunal controlado pela Inglaterra, foi sujeita a interrogatórios irregulares e a pressões psicológicas.

Este artigo analisa a sua biografia, as acusações, o desenvolvimento do julgamento, a condenação e a sua subsequente reabilitação histórica.

Índice
[HideShow]

    PRODUTOS RECOMENDADOS

    Joana d'Arc nasceu em 1412 em Domrémy, uma aldeia no nordeste de França, no seio de uma família camponesa.

    Desde a adolescência que afirmava ouvir vozes que identificava como sendo de São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida, que a incitavam a apoiar o Delfim Carlos na guerra contra a Inglaterra.

    Em 1429, participou em operações militares decisivas, especialmente no levantamento do cerco de Orleães, e nesse mesmo ano acompanhou Carlos VII a Reims para a sua coroação, um ato de enorme legitimidade política.

    Em maio de 1430, foi capturada pelas forças borgonhesas e entregue aos ingleses.

    Ilustração de Joana d'Arc

    Motivos políticos e acusações religiosas

    O julgamento contra Joana foi concebido para a desacreditar como figura de inspiração divina e, por extensão, para questionar a legitimidade de Carlos VII.

    Foi formalmente acusada de heresia, cisma, superstição, blasfémia e desobediência à autoridade eclesiástica.

    Foi também criticado por usar roupas masculinas, o que era considerado uma ofensa canónica.

    As acusações não se baseavam em factos militares, mas numa interpretação conveniente da sua experiência espiritual.

    Desenvolvimento do julgamento público e estrutura do tribunal

    O julgamento começou oficialmente a 21 de fevereiro de 1431 em Rouen, uma cidade controlada pelos ingleses, e foi presidido por Pierre Cauchon, bispo de Beauvais e apoiante de Inglaterra.

    O tribunal era composto maioritariamente por clérigos favoráveis ​​à causa inglesa, o que comprometeu a sua imparcialidade.

    Juana não tinha um conselheiro jurídico nem um defensor eclesiástico, apesar de ter solicitado um repetidamente.

    Os interrogatórios decorreram em sessões públicas e privadas.

    Os registos conservados evidenciam perguntas repetitivas, capciosas e teologicamente complexas, com o objetivo de induzir contradições.

    Juana respondeu com coerência e cautela, recusando-se a comentar questões doutrinais que não compreendia e referindo-se à autoridade da Igreja universal, o que frustrou os juízes.

    Ilustração da execução de Joana d'Arc

    Depoimentos favoráveis ​​deliberadamente ignorados

    Está documentado que o tribunal rejeitou ou ignorou depoimentos favoráveis ​​a Juana.

    Os residentes de Domrémy e os soldados franceses já tinham testemunhado sobre a sua piedade, a sua conduta moral impecável e a sua disciplina religiosa.

    Estes depoimentos, recolhidos posteriormente durante o processo de reabilitação, nunca foram considerados durante o julgamento do caso 1431.

    As testemunhas de defesa também não foram autorizadas a depor, nem foi examinado o contexto político das suas ações.

    Tratamento durante a detenção e os interrogatórios

    Joana foi mantida numa prisão militar inglesa e vigiada por soldados, em vez de permanecer sob custódia eclesiástica, como exigia o direito canónico.

    Não existem provas documentais conclusivas de tortura física directa, mas consta que foi explicitamente ameaçada com recurso a tortura para forçar confissões.

    Estas ameaças foram registadas na ata.

    A pressão psicológica era constante e sistemática.

    Estátua de Joana d'Arc

    Abjuração, reincidência e condenação

    Em maio de 1431, após semanas de interrogatório e sob ameaça de execução imediata, Joana assinou uma abjuração parcial.

    Dias depois, foi acusada de recair na heresia por voltar a usar roupas masculinas, uma decisão motivada pela sua segurança pessoal na prisão.

    O tribunal utilizou este facto como base legal para proferir a pena máxima.

    A 30 de maio de 1431, Joana d'Arc foi condenada por heresia reiterada e executada na fogueira da Praça do Mercado Velho de Rouen.

    Tinha dezanove anos.

    Revisão subsequente e significado histórico

    Em 1456, um tribunal eclesiástico ordenado pelo Papa Calisto III anulou o processo devido a graves irregularidades legais.

    Juana foi oficialmente reabilitada e reconhecida como vítima de um julgamento político.

    O seu caso é um dos exemplos mais bem documentados de manipulação judicial na Idade Média e uma fonte fundamental para a compreensão da relação entre poder, religião e guerra.