No Império Romano tardio, uma peça de vestuário que hoje consideramos essencial chegaria a ser objeto de debate e controlo legal.
Foi durante o reinado do imperador Honório, que governou o Império Romano do Ocidente de 395 a 423, que foi emitida uma norma que proibia o uso de calças e botas na cidade de Roma.
A medida reflete as tensões culturais e sociais de uma época em que Roma tentava preservar tradições perante a influência cultural crescente considerada “bárbara”.

A rejeição romana às calças
Na sociedade romana clássica, a toga e a túnica eram peças estabelecidas como símbolos de cidadania, culturalmente associadas à civilização e à ordem social. As calças, conhecidas em latim como bracae, eram vistas como uma peça típica de povos não romanos, especialmente de tribos do norte, como os gauleses e germânicos, que viviam em climas frios e as utilizavam por praticidade.
Durante grande parte da história do império, os romanos desprezaram estas peças por considerá-las “bárbaras” ou pouco apropriadas para cidadãos civilizados. A rejeição tinha tanto uma componente cultural como política, uma vez que destacava a diferença entre o cidadão romano e aqueles que eram percebidos como estrangeiros ou soldados auxiliares.
Honório e o decreto contra as calças
Foi no ano 397 que Honório, juntamente com o seu irmão Arcádio, que governava a parte oriental do império, estabeleceu uma disposição legal que proibia o uso de calças e botas dentro da cidade de Roma.
A norma, recolhida no Código Teodosiano, afirmava que “Dentro da venerável cidade ninguém deve apropriar-se do uso de botas ou calças”, com sanções que podiam incluir o exílio para quem desobedecesse à ordem.
Este decreto enquadra-se na legislação tardia do império, que regulava não só costumes sociais, mas também aspetos culturais mais amplos. A intenção por detrás desta proibição era preservar as formas tradicionais romanas de vestuário e evitar o que se percecionava como uma perda de identidade cultural perante a moda de grupos externos cada vez mais presentes no território imperial.

Contexto social e cultural da proibição
A proibição de calças não foi apenas uma norma isolada, mas parte de uma tendência mais ampla de reafirmação de costumes tradicionais numa época de grandes mudanças.
O Império Romano enfrentava pressões militares, demográficas e sociais, com a presença de numerosas populações germânicas integradas nas suas fronteiras e exércitos.
As calças eram associadas a soldados e auxiliares germânicos que serviam ao longo das fronteiras do império, bem como a migrações das regiões setentrionais, onde esse vestuário era convencional devido ao clima. Para muitos romanos, o uso de tais peças simbolizava uma rutura com as normas culturais tradicionais.
Esta rejeição cultural não foi exclusiva de Honório; anteriormente, existiu uma persistente atitude negativa face a tudo o que era percecionado como estrangeiro ou contrário à civilização romana tradicional, tal como se observa noutras fontes literárias e normas sociais da época.
Aplicação e alcance da norma
Embora a lei tenha sido emitida com carácter oficial em Roma e possivelmente noutras grandes cidades, a sua aplicação prática em todo o império foi difícil. As grandes distâncias e a diversidade cultural das províncias faziam com que a proibição fosse mais um ideal de identidade cultural do que uma norma estritamente aplicada em territórios afastados da capital.
Na realidade, fora da cidade de Roma e dos seus círculos mais restritos, a peça continuou a ser usada por necessidade e preferência pessoal, especialmente em regiões mais frias ou entre grupos militares que dependiam do uso de calças por razões práticas.

Evolução posterior do uso de calças
Após o período de Honório, com a queda do Império Romano do Ocidente em meados do século V, o uso de calças foi-se estendendo de forma natural. No Império Bizantino (a parte oriental do império), a moda e as necessidades climáticas fizeram com que as calças se integrassem gradualmente no vestuário habitual a partir dos séculos V e VI, chegando a fazer parte, inclusivamente, da indumentária oficial na corte imperial.
Esta mudança reflete como as práticas culturais evoluem: uma peça inicialmente rejeitada tornou-se comum por motivos de funcionalidade e pela influência de grupos bárbaros que se estabeleceram nos territórios romanos e, posteriormente, europeus medievais.
Legado e significado histórico
A proibição de calças por parte de Honório é um exemplo interessante de como as normas de vestuário podem refletir tensões culturais mais amplas numa sociedade em transformação. Embora possa parecer anedótico, este decreto proporciona uma perspetiva sobre a identidade romana tardia, a sua resposta às influências externas e a maneira como as elites tentaram preservar tradições perante mudanças sociais e demográficas.
Além disso, é um exemplo claro de como o vestuário pode adaptar-se ao contexto e é visto de diferentes formas, dependendo do momento, sendo sempre variável ao longo do tempo — até mesmo aquelas que, mais do que modas, tentam ser tradição...
Este episódio, embora não tenha tido um impacto duradouro na moda global, destaca como até aspetos quotidianos como a roupa podem ser objeto de regulação em momentos de crise cultural.




